Tio Adão e a máquina de virtualizar

Apresento a você meu tio Adão. É esse senhor que está de pé, ao lado do carro de um amigo. Parado, de costas, enquanto conversava, tio Adão não sabia, mas havia sido capturado por uma gigante máquina de virtualização. Muito provavelmente sequer notou o carro com câmeras dispostas em ângulo de 360°, que o capturaram e possibilitaram sua prisão no ciberespaço.
O fato de tio Adão não ter percebido talvez se deva a forma como se deu sua captura: capturaram sua imagem, um registro de um instante que se passou em uma manhã de julho de 2011. O que eles conversavam? Não sei. O que se passava em sua vida? Também não sei. Mas sei que provavelmente ele passou o resto dos seus dias sem saber que havia sido capturado por essa máquina-mapa, e que agora circulará pelo ciberespaço enquanto este existir.
O tempo passará. Eu passarei. A lembrança de tio Adão passará. Porém, na internet restará aquela imagem de dois homens desconhecidos, que conversavam de manhã em uma rua de uma cidade pequena em julho de 2011. Quem serão esses homens? O que significarão para esses espectadores do futuro? Provavelmente nada. Serão apenas mais dois figurantes com o rosto borrado atrapalhando o que realmente importa: o mapa.
Quando converso sobre o conceito de virtual, no âmbito das tecnologias digitais, normalmente sinalizo a distinção entre a potência e a possibilidade, destacando como o virtual está para a potência assim como o real para a possibilidade. Dificilmente essa distinção satisfaz meu interlocutor, uma vez que a própria distinção entre potência e possibilidade não está bem clara – para a maioria das pessoas acabam sendo a mesma coisa. Nesse momento me deparo com o desafio de tornar concreto algo de difícil visualização: como a pessoa pode pensar a potência?
A possibilidade é mais fácil, uma vez que é só imaginar o que poderia, pode ou poderá ser. Se eu consigo vislumbrar esses momentos, isto é, se eles têm ser, então estamos falando de possibilidades. Essas estão ligadas a uma dimensão substancial, que o pensamento é capaz de apreender previamente e antecipar. De forma concreta, existiria a possibilidade que eu escrevesse este texto ou não, eu tomei uma decisão baseada em alternativas.
Quanto ao âmbito da potência, se trata de um outro olhar. Não falamos sobre a substância de alternativas de existência no pensamento, mas de acontecimentos. A potência de algo tem a ver com a capacidade desse algo vir a ser outra coisa. Ou seja, de que esse algo pode passar de um estado a outra atualizando determinados atributos que não são necessariamente previsíveis ao pensamento. Por exemplo este texto: eu tinha a possibilidade de escrevê-lo ou não, porém não era capaz de prever seu acontecimento antes de o escrever. Conforme eu escrevia, eu mobilizava a potência desse texto, atualizando-o de determinada forma. Por isso a palavra “atual” é importante quando se fala em virtual, uma vez que eu extraio do virtual o texto que crio, tornando-o atual. Eu não prevejo e represento uma possibilidade dada. Eu crio.
O ciberespaço (internet) surge em função da aceleração dos processos de virtualização. Ao longo da história, em função do seu desenvolvimento técnico, os seres humanos foram transformando a natureza para garantirem sua sobrevivência. Nesse processo, também acabaram por transformar os próprios corpos, tanto física quanto mentalmente. No que tange as transformações mentais, foram transformações em função da relação dos indivíduos com a linguagem e com as tecnologias. Foram diversas interfaces criadas que, pouco a pouco, foram impactando o modo como o ser humano percebe o mundo. Por exemplo, a escrita transformou a experiência da oralidade, enquanto as diferentes interfaces das impressões transformaram o modo de organizar o pensamento textual. Isso virtualizou formas de experiência e pensamento.
Contemporaneamente as tecnologias digitais têm impactado nossa experiência de mundo. Cada vez mais nos valemos de sua potência para virtualizarmos nossos corpos e inteligência. Passamos a ser seres híbridos (ou ciborgues). Nossa existência não está limitada à materialidade de nossos corpos, mas é projetada para fora, na virtualidade que nos envolve, acompanha e nos define. É a partir da virtualidade que podemos criar no mundo, o mundo e a nós próprios. Exemplos dessa virtualidade é nossa memória (incluindo até aquela grande parte que não lembramos), as palavras, os números e os conceitos. Todas são entidades virtuais que atualizamos no mundo cotidianamente.
O computador é uma máquina de virtualizar. Com ele operamos um modo de conversão, que parte das coisas atualizadas para uma forma potencial, virtualizada: o dígito. O computador transforma o mundo em uma linguagem que só ele é capaz de entender – o código binário – suspendendo os significados, para que sejam atualizados em diferentes formatos, lugares e com diferentes pessoas, de forma ubíqua e simultânea. No contexto da internet, essa virtualização significa que tudo o que é capturado em dígito passa a habitar um servidor (que não deixa de ser um computador), o qual se comunica e troca informações com diversos outros. Isso faz com que aquilo que fora digitalizado circule, sendo imprevisível indicar um local de sua existência.
Estamos falando aqui de uma grande memória coletiva, que não é redutível à metáfora das gavetas. Não se trata mais de situar geograficamente as entidades virtuais, mas de encontrá-las em função de contextos específicos de significação. Onde for relevante que determinado arquivo apareça, alguém na rede poderá disponibilizá-lo, atualizando sua existência sob novo contexto. Não é à toa que dizem que uma vez que algo é publicado na internet, não pode ser removido. Exatamente por essa circulação, que inviabiliza o rastreamento e liquidação de todas as possíveis cópias. E a questão é justamente essa, pois como já mencionado, não se trata mais do possível, mas da potência.
O que o mapa fez com tio Adão? Capturou um instante de sua existência. O mapa não sabe quem foi, seu temperamento ou qualquer outra característica de sua vida. Mas o fato é que aquele instante da vida dele foi capturado e virtualizado. Tio Adão agora é uma entidade virtual que habita uma quantidade desconhecida de servidores. Junto à lembrança que a família guarda dele, essa imagem de sua presença na rua expressa um pequeno lampejo do que fora. O tempo passou, ele finou e hoje é uma digitalidade, que podemos reencontrar quando voltamos no tempo da máquina-mapa.
E o curioso é que exatamente neste momento, em que escrevo este texto, estou atualizando tio Adão mais uma vez. Resgato na memória as lembranças que dele tenho, mas não as evoco. Aqui, o que me interessa é a lembrança da máquina. Aquela lembrança estéril, que segue a lógica do algoritmo. Que menos que indivíduos, vê apenas figurantes, que devem ter os rostos borrados para evitar prejuízos à empresa.
Você pode se interessar em saber mais do meu tio, mas isso não é possível. Pois olhando o mapa, o que se vê são indivíduos, das mais variadas formas, cada um com suas virtualidades. Mas o que o mapa vê? O que nós podemos ver com o mapa? Seria nosso destino sermos capturados por máquinas-mapas sem nem percebermos, tendo nossa existência reduzida a dígitos que transitam entre computadores no ciberespaço?
Quem é você no mapa?